COMO VOU SAIR DAQUI?
Como sairemos de tudo isso? Essa pergunta, de dupla interpretação, povoa a mente de todos nós há alguns dias, algumas semanas. Num primeiro aspecto, não há dúvidas de que quem trará essa resposta será a ciência, com a criação de uma vacina que já faz parte dos nossos sonhos mais ideais. Mas há uma possível segunda interpretação, mais complexa, àquele questionamento: quem seremos, que tipo de pessoas nos tornaremos depois dessa experiência insana, repleta de angústia e ansiedade? Para se responder a essa pergunta, há diversos caminhos.
Vivemos em meio a uma enxurrada de informações, exposições e explanações que buscam esclarecer algo que nós, nossos pais, avós e gerações passadas jamais puderam imaginar que aconteceria. Além disso, a pandemia não é um problema especificamente da área da saúde, pois traz consigo a dificuldade de interpretarmos nossos controles emocionais, decorrentes de um enclausuramento, tal qual nos reality shows. Só que, dessa vez, não se trata de um afastamento programado, mas coercitivo, e sair da casa pode implicar na perda do prêmio mais valioso de todos: a vida.
Dividimos o teto de nossas casas não apenas com os familiares, mas com o medo, o mais novo morador. Temer o desconhecido faz com que liberemos o cortisol. A esse respeito, assisti recentemente a dois influenciadores que, provavelmente pelo mesmo motivo que me move agora, abordaram o tema a fim de controlar suas próprias ansiedades de oferecer interpretações e pontos de vista sobre o que está se passando conosco. O cortisol é o hormônio liberado sempre que nos sentimos vulneráveis e sozinhos, o que provoca a sensação de ansiedade.
Simon Sinek pontua que na pré-história, o fato de não pertencermos a um grupo e estarmos mais à margem dele, nos deixava mais suscetíveis do que aqueles cercados por semelhantes, dentro de um círculo de segurança. Entretanto, na nossa situação atual, todos estamos à margem e o risco é coletivo, pois podemos, por exemplo, ser assintomáticos e responsáveis por uma contaminação em massa, desde que não sejam adotadas medidas de isolamento, essas que parecem ser as únicas formas de combate ao vírus sabidamente eficazes até o momento. Sintetizando, todos estamos liberando cortisol.
A ocitocina, por sua vez, hormônio do amor químico, é liberada quando estamos amparados por um grupo de pessoas em que confiamos a ponto de deixar expostas todas as nossas fragilidades e vicissitudes, oferecendo a elas, inclusive, a possibilidade de nos destruir, embora tenhamos a certeza de que não fariam isso conosco. Tal substância é capaz de reforçar o sistema imunológico e nos proporciona calma e segurança duradouras, decorrentes da sensação de pertencimento. O número de seguidores ou de curtidas em redes sociais, por exemplo, não é capaz de suprir a necessidade humana de pertencer, mas apenas o amparo daqueles que nos fazem sentir bem ou são responsáveis por nosso futuro neste momento. A restrição à convivência social é uma barreira inequívoca à ocitocina, mas, em tempos difíceis como o que estamos vivendo, ela pode ser liberada a partir da simples percepção de que decisões estão sendo corajosamente tomadas para salvar nossas famílias e a vida de milhares de pessoas vulneráveis, não nos deixando desamparados.
Nesse contexto, o principal caminho para lidarmos com tanta insegurança e tanta ansiedade ocasionadas, como visto, muitas vezes pelo desequilíbrio nos níveis hormonais, é a crença. O brilhante Tony Robbins, citando Anton Tchecóv, nos lembra que “O homem é o que ele acredita”. As crenças do homem são filtros pré-arranjados e organizados sobre nossas percepções do mundo. O uso de placebos, ou até mesmo de drogas, evidencia que a “magia” de seus resultados reside na cabeça das pessoas, e não na substância em si.
Dessa forma, Tony Robbins apresenta algumas formas como as crenças são concebidas, para podermos entender o porquê de elas interferirem tanto na nossa visão de mundo:
a) Ambiente – a privação diária e as frustrações, por si sós, não são o grande problema que as pessoas podem vivenciar numa experiência, mas sim o efeito que o ambiente gera sobre nossas crenças e sonhos. As nossas representações internas de fracasso e desespero dificilmente trarão resultados diferentes do insucesso;
b) Acontecimentos pequenos ou grandes – certos acontecimentos jamais são esquecidos, e o que estamos vivenciando é um deles. Lembramos todos o que fazíamos em 11 de setembro de 2001, e vamos nos lembrar daquilo o que está acontecendo agora, e isso influenciará na forma de ver o mundo e suas relações;
c) Conhecimento – além da experiência direta, a capacidade de nos transformarmos por meio da leitura é o caminho mais seguro para romper as limitações de um ambiente limitador, independente do nível social;
d) Nossos resultados passados – o fato de já termos feito algo parecido anteriormente, ou de virmos alguém que, com a mesma capacidade que temos, superou as adversidades. Cabe somente a nós acreditar naquilo que pode, à primeira vista, nos parecer impossível. A humanidade já superou outras situações similares. O caminho é longo, mas possível;
e) Criação, na mente, do que se deseja, aqui e agora – são os resultados experimentais antecipados. Temos muito mais êxito quando buscamos aquilo que desejamos em vez de alcançarmos somente aquilo que precisamos para sobreviver. Esse é um mecanismo para mobilização de crenças que as pessoas costumam não utilizar, pois as formam, na maioria das vezes, ao acaso.
Nós temos sim a capacidade de controlar nossas crenças e representações internas, assim como a forma pela qual modelamos as outras pessoas e suas reações. Podemos, por meio de nossa consciência, dirigir e direcionar os caminhos de nossas vidas. Faça um simples exercício, elegendo cinco crenças-chave que limitaram seu passado e, a seguir, cinco crenças positivas sobre suas metas mais altas no futuro. Permita-se acreditar que as crenças são capazes de limitar o nosso potencial, que este influencia nas nossas ações e estas atuam diretamente em nossos resultados. Se nossas crenças nos apontam que somos incapazes de algo, imagina-se claramente qual resultado obteremos. Entretanto, se partirmos com expectativas confiantes, coerentes e afirmativas, a possibilidade de êxito altera-se completamente.
O momento é adverso, incerto e oferece desafios de curto, médio e longo prazo. Todos sofremos, todos sofreremos, mas se partimos de uma crença não limitadora, já teremos o mínimo suficiente para fazermos algo diferente. E é assim, diferentes, que sairemos dessa pandemia. Que comece por mim, por ti, por nós. Que não nos esqueçamos das crenças e que, o mais breve possível, possamos estar livres e seguros porta afora de nossas casas, sendo invadidos por incessantes “ondas de ocitocina”.
“Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez” (Jean Cocteau – 1889-1963)
FONTES:
ROBBINS, Tony. Poder sem limites: a nova ciência do sucesso pessoal/Tony Robbins; tradução Muriel Alves Brazil – 35ª ed. – Rio de Janeiro: BestSeller, 2019;
SINEK, Simon. Líderes se servem por último: como construir equipes seguras e confiantes/Simon Sinek; tradução Marcello Borges. – São Paulo: HSM Editora, 2015.

